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Povo Potiguara mantém grande parte da cultura e costumes preservados em Baía da Traição

Mais de 90% da área da cidade é situada em reservas indígenas, que se dividem em 32 aldeias, mas todas pertencentes ao povo Potiguara.


Djama e suas netas (Foto: Luís Eduardo)
Por Luís Eduardo Andrade, do Portal Correio
Você já imaginou se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil? E se os povos indígenas ainda fossem maioria no nosso país? Na cidade de Baía da Traição, que fica a 90 quilômetros de João Pessoa, no Litoral Norte da Paraíba, é possível experimentar um pouco desse cenário hipotético.
Mais de 90% da área da cidade é situada em reservas indígenas, que se dividem em 32 aldeias, mas todas pertencentes ao povo Potiguara que, por sinal, detém a maior reserva do Brasil com descendentes dos índios dessa tribo. Município pacato, como uma boa cidade pequena, Baía da Traição carrega uma história pesada, de lutas, guerras e mortes. Se hoje os moradores respiram paz e tranquilidade, seus descendentes precisaram enfrentar diversos conflitos para manter seus costumes e, principalmente, suas terras.
Potiguaras de guerra
A palavra ‘Potiguara’ quer dizer ‘comedor de camarão’, em referência à alimentação dessa tribo que vivia basicamente da pesca do crustáceo no litoral paraibano. Porém, as mesmas lanças que eram usadas na pescas de outros peixes, foram usadas para lutar contra portugueses que pretendiam colonizar a costa paraibana.
Se engana quem pensa que os lusos foram os primeiros a pisar nas terras da Paraíba. Franceses de ascendência escandinava chegaram ao Brasil por volta de 1515 e promoveram uma relação de ‘protocooperação’ com os indígenas. Tinham acesso aos recursos naturais dos potiguaras, em troca de vantagens reais, como ferramentas de plantio e cavalos, diferentemente do escambo promovido pelos portugueses na Bahia.
Erra quem pensa que a relação dos Potiguaras com os europeus sempre foi amigável. Por volta de 1585, após o Tratado de Tordesilhas, que designava a colonização brasileira aos portugueses, os ‘gajos’ chegaram até a costa paraibana armados até os dentes para destruir a cultura indígena junto com os apoiadores franceses e se apossar inteiramente da exploração da terra.
Mesmo com o apoio dos franceses, a derrota dos indígenas foi inevitável. No conflito, milhares de índios perderam suas vidas. A partir daí, muitos anos se passaram, a região começou a ser povoada por europeus, em seguida foi elevada à freguesia, ou seja, território português, mas uma coisa não mudou: a força da cultura indígena para superar as adversidades.
Etnocídio nunca mais
“Eu nasci como índio e vou morrer como índio”. A declaração do indígena Djalma Domingo, de 67 anos e morador da Aldeia São Francisco, revela o orgulho que uma cultura traz a seu povo. Uma história de luta e resistência sempre gera identidade a quem resiste. Por esse motivo é comum ver nordestinos com muito orgulho de sua região, por exemplo. O mesmo acontece com os povos indígenas. “Eu nunca vou deixar de dançar. É minha cultura. Eu tenho falado pros meus filhos e netos, que não podemos desprezar nossa cultura. Precisamos mostrar que ainda existimos”, atesta Djalma.
Como toda boa tribo indígena, o cacique é quem manda. “Ninguém tem direito de chegar na aldeia de um índio e querer mudar a cultura do seu povo. Se quer fazer um negócio, tem que ser bom para os dois. Quando só um sai beneficiado, não tem respeito”, o que diz o Cacique Raqué, líder dos Potiguaras, é quase uma resposta à colonização imposta pelos portugueses no ano de 1500. O discurso do cacique não está desatualizado, pois até hoje a cultura do índio sofre com tentativas de etnocídio, ou seja, de destruição dos costumes e tradições.
“Nós precisamos do homem branco. Nós não temos hospital, energia elétrica, estrada. Eles nos ajudam e nós ajudamos eles. O que não pode é querer trocar os costumes da gente pelos costumes deles”, revela Raqué. Trajado com cocar, colares e paramentos, o cacique explica o significado de cada um deles. “O cocar é feito com penas de arara e o colar com dentes de onça e jacaré, que é para lembrar dos animais, da natureza. Assim como o colar de sementes, que lembra a mãe Terra. As pinturas são de setas que são as setas da vida, indicam os caminhos. A maraca é um chocalho para chamar os guias na hora do Toré [ritual religioso]”.
Respeito e amor
A principal mensagem que o cacique Raqué quer repassar com seu exemplo é apenas uma: respeito. “Se eu tenho uma religião, você respeita a minha. Se você tem outra religião, eu respeito a sua. Tá faltando mais amor. Ninguém quer mais preservar o costume do outro”, revela.
Ao fim da entrevista, o cacique colocou em prática todo seu discurso. Raqué aplicou uma aula de Sociologia e Política, regado a um bom suco de mangaba, que todo brasileiro precisa assistir. “O Brasil é bom. Olhe para essa natureza, olhe para nosso povo. A gente é bom. Lá no fundo. Mas o dinheiro faz a gente ficar mal. Dinheiro é só um pedaço de papel. Não é a coisa mais importante. Quando quem tiver lá em cima começar a pensar nisso, o Brasil vai começar a mudar”.


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